# 90 minutos e um almoço: como a IA é regulada de verdade

90 minutos para barrar estrangeiros. Um compromisso assinado num almoço. Assim a IA é regulada hoje, e defendo que quem constrói merece uma regra publicada.

2026-10-08

Washington diz que sua ordem de junho sobre IA não cria licença nenhuma. Na prática, decisões caso a caso, com base em padrões não publicados, agora definem quando um modelo de fronteira é lançado, e os laboratórios escolhem quem os fiscaliza. Mesmo para uma tecnologia que avança tão rápido, acredito que uma regra publicada serviria melhor a quem constrói.

Parece que cada dia dos últimos anos trouxe um bombardeio de notícias sobre IA. O que diferenciou 2026, a meu ver, foi o modo de agir de Washington, menos por regras publicadas e mais por decisões caso a caso sobre laboratórios específicos.

No início do ano, o Pentágono classificou a Anthropic como um "risco na cadeia de suprimentos", uma classificação criada para empresas de países adversários, depois que a empresa se recusou a abrir mão de dois limites sobre como os militares poderiam usar seus modelos. \[1]\[2] Em junho, Washington deu à Anthropic no máximo 90 minutos para cortar o acesso de usuários estrangeiros aos seus dois modelos mais novos, sem um motivo detalhado, e a Anthropic desligou os dois para todo mundo. \[3] Em setembro, Washington foi pelo caminho oposto: líderes de seis das maiores empresas de IA assinaram, num almoço na Casa Branca, um compromisso pelo qual cada empresa escolhe o próprio auditor. \[4]\[5] **Elon Musk**, um dos seis, chamou o acordo de "basicamente um corrigindo a lição de casa do outro". \[6]

> "Basicamente um corrigindo a lição de casa do outro."
>
> — **Elon Musk**, um dos seis \[6]

![Donald Trump põe a mão no ombro de um executivo de tecnologia do lado de fora da Ala Oeste, com a Casa Branca ao fundo, depois do almoço de 29 de setembro de 2026.](https://tn0oilsmy7aw0f5x.public.blob.vercel-storage.com/posts/rule-versus-discretion/white-house-shoulder.jpg)

_Trump com executivos de tecnologia do lado de fora da Ala Oeste depois do almoço, 29 de setembro. Foto oficial da Casa Branca, de Molly Riley._

Por trás do barulho, esses eventos parecem ter um padrão em comum: as decisões que importam vêm sem critérios publicados. Autoridades tiraram modelos específicos do mercado sem dizer o que os tornava inseguros, \[7] e o acordo deixa em aberto o que torna um auditor independente. \[5]

Cada uma dessas decisões, à sua maneira, definiu como regular a IA. Regulação é, de modo geral, a forma como um Estado define o que é e o que não é aceitável. O debate em torno dela, porém, tem sido bem mais confuso do que isso.

Acho enganoso o enquadramento de sempre, "regras" contra "liberdade". Não existe liberdade irrestrita, e até defensores clássicos do governo limitado, como Hayek, Friedman e Nozick, aceitam isso. \[8]\[9]\[10] Para mim, a escolha real é entre uma regra publicada de antemão e aberta ao escrutínio, e a discricionariedade de quem tem o poder de decidir, seja num gabinete do governo, seja na sala do conselho de uma empresa.

O que separa as duas é a publicidade, no velho sentido jurídico da palavra: uma decisão tomada às claras. Uma decisão tomada com base num padrão que qualquer um pode ler pode ser checada: serve ou não ao interesse público? Uma decisão tomada em privado não se distingue do interesse de quem a tomou. Uma empresa pode funcionar com o segundo tipo. Um país, eu diria, não deveria.

![Quem decide, e se o padrão vem antes. A maioria dos casos de 2026 fica na coluna da discricionariedade; uma regra publicada abre a coluna da regra.](https://ricardokrug.com.br/pt/blog/regra-ou-discricao/figures/thesis-map.png)

Uma resposta que ouço é que a IA anda rápido demais para regras, e que o julgamento caso a caso funciona. Correndo o risco de desagradar alguns colegas do setor de tecnologia, defendo que a previsibilidade de uma regra publicada é melhor. Vou detalhar o que entendo por uma perto do fim. Antes, eis como 2026 chegou até aqui.

## Uma licença com outro nome

A ideia de uma licença federal para IA não é nova. Em 2023, **Sam Altman** pediu ao Senado "uma nova agência que licencie qualquer esforço acima de certa escala de capacidades", \[11] e os senadores **Richard Blumenthal** e **Josh Hawley** propuseram um regime de licenças. \[12] O Congresso não aprovou nenhuma das duas.

A ideia voltou em maio deste ano, de dentro da Casa Branca. Em 6 de maio, **Kevin Hassett**, principal conselheiro econômico do presidente, disse que o governo estudava uma ordem executiva pela qual novos modelos de IA que pudessem criar riscos de segurança seriam "liberados para uso depois de comprovadamente seguros, como um medicamento aprovado pela FDA". \[13] Pela minha leitura, isso significava nenhum lançamento sem aprovação prévia do governo.

O rascunho encontrou resistência e foi reescrito como algo voluntário: as empresas podiam dar ao governo acesso antecipado a novos modelos para testes, e uma cláusula dizia que a ordem não autoriza licença obrigatória. \[14] Até isso foi demais para alguns. Antes da assinatura de 21 de maio, Elon Musk, da xAI, **Mark Zuckerberg**, da Meta, e **David Sacks**, ex-czar de IA e cripto da Casa Branca, ligaram cada um para o presidente **Donald Trump**, e a cerimônia foi cancelada. \[14] Em 2 de junho, Trump assinou a ordem mesmo assim, quase sem mudanças, como a Ordem Executiva 14409. \[15] Sua cláusula central diz:

> "Nada nesta seção deverá ser interpretado como autorização para criar uma exigência governamental obrigatória de licença, de autorização prévia ou de permissão para o desenvolvimento, a publicação, o lançamento ou a distribuição de novos modelos de IA, incluindo modelos de fronteira."
>
> — Seção 3(c), Ordem Executiva 14409 \[16]

Repare no verbo. A cláusula diz que esta seção da ordem não *autoriza* uma licença. Também não a proíbe, e mantém intactos os poderes que as agências do governo já tinham. Um desses poderes estava prestes a ser usado.

## Washington decide quando um modelo é lançado

Em 9 de junho, a Anthropic lançou o Mythos 5, um modelo que encontra e explora falhas de segurança em software, e o Fable 5, o mesmo modelo com salvaguardas para o público em geral. O Departamento de Comércio, cujo centro de testes de IA tem acesso antecipado aos modelos da Anthropic desde 2024, tinha aprovado o lançamento do Fable "poucos dias antes". \[17]\[3]

Em 12 de junho, uma carta do mesmo departamento pôs os dois modelos sob controle de exportação, a ferramenta legal que Washington usa para manter chips avançados longe da China. Ela proibiu qualquer cidadão estrangeiro de usar qualquer um dos dois modelos, em qualquer lugar, inclusive os próprios funcionários estrangeiros da Anthropic. \[18] A Anthropic não tinha como verificar a nacionalidade em tempo real, então desligou os dois modelos para todo mundo. \[2] Teve 90 minutos para fazer isso. \[3]

A reação foi barulhenta: mais de 3.000 pontos e 2.300 comentários no Hacker News, \[19] e quem constrói reclamando no X, ou zombando das reclamações:

> There's an issue with the selected model (claude-fable-5). It may not exist or you may not have access to it. Run /model to pick a different model. 😭😭😭
>
> — @levelsio (@levelsio), 2026-06-13
>
> https://x.com/levelsio/status/2065722768163737883

> Sounds like we’re going to have turn off access to Fable.
>
> > JUST IN: Trump administration moves to block foreign governments, companies & individuals from accessing Anthropic's Fable & Mythos models.
> >
> > — Polymarket (@Polymarket), 2026-06-13
> >
> > https://x.com/Polymarket/status/2065586704057057420
>
> — Amjad Masad (@amasad), 2026-06-13
>
> https://x.com/amasad/status/2065600809224814835

> Rough estimate on $ productivity lost by Fable 5 ban: $12M per hour
>
> Frontier AI-coding daily actives, mid-2026: 5M devs 
> Fully-loaded cost: $90/hr 
>
> Work routed to Fable in 48 hours: 17.8%
> Fable is on average \~15% more productive 
>
> Effective throughput loss per dev = 17.8% × 15% ≈ 2.7% of output
>
> 2.7% × $90/hr = \~$2.40/dev/hr × 5M devs = $12M per working hour
>
> — Garry Tan (@garrytan), 2026-06-17
>
> https://x.com/garrytan/status/2067366749411176831

> All the devs whining about fable being banned need to go hit the gym and stfu
>
> — ThePrimeagen (@ThePrimeagen), 2026-06-15
>
> https://x.com/ThePrimeagen/status/2066505099489198380

A Anthropic diz que a carta veio depois de um relatório de pesquisadores da Amazon que tinham achado um jeito de contornar algumas salvaguardas do Fable 5, \[2] uma capacidade que a Anthropic chamou de "amplamente disponível em outros modelos", entre eles os da OpenAI. \[18] Desenvolvedores apontaram o mesmo:

> I'm just glad nobody at the US government thought to try that Fable 5 "jailbreak" against Opus 4.x or GPT 5.x, or I wouldn't be getting anything useful done this weekend at all
>
> — Simon Willison (@simonw), 2026-06-14
>
> https://x.com/simonw/status/2066147375119556735

Os modelos voltaram aos poucos: o Mythos 5 em 26 de junho, só para "um conjunto de organizações dos EUA que operam e defendem infraestrutura crítica", \[20] e o Fable 5 para todos em 1º de julho, depois que os controles caíram. A Anthropic disse que eles foram suspensos depois que ela implantou salvaguardas. \[2] O Departamento de Comércio não publicou nenhuma declaração detalhada dos seus motivos. \[21] O que pôs por escrito é que "se reserva o direito de reavaliar as decisões tomadas nesta carta e a necessidade de reimpor uma exigência de licença". \[2] E, para chegar lá, como disse um analista do Cato Institute, a Anthropic "precisou manter conversas e negociações privadas com a Casa Branca". \[7]

A palavra "licença" naquela carta pertence à lei de exportação, não à ordem executiva. Mas, para quem constrói, acho que o efeito é o mesmo: o modelo é lançado quando o Departamento de Comércio diz que sim, e o departamento pode dizer não de novo.

## Quem pode lançar para quem?

O Fable saiu do ar. O modelo seguinte da OpenAI, o GPT-5.6, simplesmente esperou.

> [!ASIDE handwritten]
> Eu sei, parece que foi há séculos, não é?

Em 26 de junho, a OpenAI segurou o lançamento completo "a pedido do governo dos EUA", dando acesso só a um pequeno grupo de parceiros previamente avaliados. \[22] O lançamento para o público em geral teve sinal verde "depois de testes adicionais e reuniões entre a empresa e autoridades do governo", e veio em 9 de julho. \[23]

![2026, por data. As duas contagens são os dias entre as datas do texto.](https://ricardokrug.com.br/pt/blog/regra-ou-discricao/figures/timeline.png)

A Casa Branca conta de outro jeito: "Nenhuma permissão desse tipo é exigida ou concedida". \[23]

> [!QUESTION]
> - "Nenhuma permissão desse tipo é exigida ou concedida."
> - O lançamento esperou quase duas semanas.
>
> Se você constrói seguindo um roadmap, em qual das duas versões você se baseia para planejar?

Não conheço muita gente que se oponha a testar um modelo antes do lançamento. O que me parece estranho é que o público não pode ver o padrão. O framework de testes do governo "é voluntário, limitado a modelos fechados, e o framework não foi tornado público", como disse o The Verge em agosto. \[24]

O setor financeiro também tentou uma fiscalização voluntária antes de 2008. Em 2004, a Securities and Exchange Commission permitiu que grupos de bancos de investimento "se submetessem voluntariamente à regulação". \[25] Em setembro de 2008, seu presidente, **Christopher Cox**, encerrou o programa: "Os últimos seis meses deixaram muito claro que a regulação voluntária não funciona". \[25]

E o acesso continuou dividido em níveis. O Mythos 5.1 "está disponível apenas por meio dos nossos programas de acesso para usuários de confiança", escreveu a Anthropic em 1º de setembro, sem data para um acesso mais amplo. \[26] O governo não publicou nenhum critério de liberação. \[7] Um recurso pelas regras de controle de exportação termina nas mãos de uma autoridade dentro do próprio Departamento de Comércio, e a lei exclui essas decisões da revisão judicial. \[27]\[28] Sem revisão externa, nada mostra se uma decisão serviu a um propósito público ou só às preferências de quem a tomou. Na minha visão, uma decisão que ninguém pode revisar funciona, na prática, como uma decisão privada.

> [!CLAIM]
> Uma decisão que ninguém pode revisar funciona, na prática, como uma decisão privada.

Não dá para planejar um roadmap com base numa decisão que você não consegue ler, tomada por motivos que você não consegue ver. E a opacidade não é igual para todos. Os laboratórios nas conversas privadas ficam sabendo o que o governo quer. Quem não consegue ler a decisão está fora da sala, que é onde toda startup está.

## Cada laboratório escolhe o próprio auditor

Então veio setembro. Num almoço na Casa Branca em 29 de setembro, líderes do Google, da Anthropic, da Meta, da OpenAI, da xAI e da NVIDIA assinaram o White House Accord on Super Intelligence, um compromisso, não uma lei, sobre como vão gerir os riscos dos seus modelos mais poderosos. \[4]\[29] O terceiro compromisso é o que acho interessante. Cada empresa deve:

> "Firmar parceria com um auditor ou avaliador externo independente para fazer avaliações independentes sobre se os controles, o monitoramento e a detecção estão funcionando como previsto." \[5]

Admito que uma fiscalização externa é um avanço no papel. **Amit Eyal Govrin**, da theCUBE Research, apoia o acordo como "o menor de dois males": "A auditoria externa agora é a posição declarada dos EUA, e chegou lá sem entregar aos incumbentes um fosso regulatório". \[30] Mas o acordo não nomeia ninguém para escolher, aprovar ou pagar o auditor, e não define nenhum teste de independência. \[5] Como diz Govrin: "Os laboratórios escolhem e pagam os próprios auditores". \[30]

O setor financeiro tem um nome para esse desenho: issuer pays, ou "o emissor paga". Desde os anos 1970, os emissores de títulos escolhem e pagam as agências "que classificam seus títulos", nas palavras da equipe técnica da Financial Crisis Inquiry Commission. \[31] Uma agência que desse uma nota baixa demais a um cliente podia perder esse cliente. Depois de 2008, a comissão chamou as agências de rating de "engrenagens essenciais na roda da destruição financeira". \[32] Não sou o único a ver a semelhança. Um artigo de julho para o Council on Foreign Relations disse diretamente: "A analogia mais próxima de empresas que financiam os próprios avaliadores é o modelo de rating de crédito em que o emissor paga". \[33]

![O emissor paga, antes e agora.](https://ricardokrug.com.br/pt/blog/regra-ou-discricao/figures/issuer-pays.png)

Os signatários também escrevem os próprios padrões, e a lei pode esperar: "Com o tempo, pode fazer sentido incorporar essas medidas a leis ou regulamentos". \[5]

Com o tempo.

Naquela tarde, o vice-presidente **JD Vance** argumentou contra uma agência ao estilo da FDA para a IA: "a maioria dos burocratas simplesmente sabe muito menos sobre isso do que as pessoas que de fato constroem esses produtos". \[6] Já ouvi isso antes. **Jeff Skilling** comandava a Enron, que a *Fortune* elegeu a empresa mais inovadora dos Estados Unidos seis anos seguidos, e desqualificava quem discordasse como alguém sem inteligência para entender. A Enron quebrou em 2001, e Skilling foi preso por fraude. \[34]\[35] Saber mais do que quem te fiscaliza nunca foi motivo para não ter fiscal.

## "Eles vão se policiar"

![Donald Trump fala com a imprensa do lado de fora da Ala Oeste, com executivos de tecnologia atrás dele, depois do almoço de 29 de setembro de 2026.](https://tn0oilsmy7aw0f5x.public.blob.vercel-storage.com/posts/rule-versus-discretion/white-house-microphones.jpg)

_Depois do almoço, 29 de setembro. Foto oficial da Casa Branca, de Joyce Boghosian._

No dia seguinte, Trump resumiu tudo no Salão Oval:

> "Eles vão policiar, e vão policiar uns aos outros, e vão se autopoliciar, vão policiar a si mesmos. Vai dar muito certo." \[36]

A história recente parece nos dizer o contrário, sobretudo em setores movidos por especulação, e em outubro de 2025 o Bank of England disse que as avaliações das empresas de tecnologia focadas em IA pareciam "esticadas". \[37] A comissão que investigou 2008 concluiu que "as sentinelas não estavam em seus postos", em boa parte por causa da fé na "capacidade das instituições financeiras de se policiarem de forma eficaz". \[32]

Como é a autorregulação na prática? Em setembro, a OpenAI classificou o próprio GPT-6 Astra como tendo atingido o "limiar Crítico em cibersegurança do nosso Preparedness Framework", o mais alto dos seus dois limiares de capacidade. \[38] Especialistas externos ajudaram, diz a OpenAI, mas o framework e o rótulo são da OpenAI, e não encontrei nenhum órgão independente que tenha confirmado a classificação. Meu palpite é que o rótulo é honesto. Mas, como membro do público, só me resta acreditar na palavra da OpenAI, e a você também.

## Pior que uma licença

Algumas das críticas mais afiadas a esse sistema vêm de quem quer menos regulação, não mais. Para o analista do Cato citado acima, um esquema informal como este é um sistema de licenças disfarçado, e pior: sobre o Fable e o GPT-5.6, "ninguém sabe o que os tornou perigosos demais para serem lançados, e ninguém sabe o que os tornaria seguros o suficiente para serem lançados". O esquema é "desnecessariamente obscuro, impossível de rastrear e essencialmente incontestável, o que o torna de algum modo pior do que um processo formal de licenciamento". \[7]

A solução do Cato não é uma FDA para a IA, que ele chama de "profundamente falha". É uma lei de escopo limitado aprovada pelo Congresso, com "um conjunto claro de parâmetros que se aplicam apenas a riscos significativos". \[7] Pela minha leitura, isso é uma regra, não uma agência de licenças.

Até o principal redator técnico do AI Action Plan do governo escreveu, duas semanas depois da ordem de junho, que "na prática, agora você precisa, sim, de um sinal verde explícito do governo". \[39] Dois dias depois, o Politico noticiou que a OpenAI o tinha contratado. \[40]

## Quando o sistema falha

Acho que o risco maior ainda está por vir. Em julho, agentes de IA que a OpenAI testava para avaliar sua capacidade de hacking escaparam da sandbox e invadiram a Hugging Face. \[41] Mais cedo ou mais tarde, imagino, um incidente assim vai parar na primeira página, e os legisladores vão ficar sob pressão para agir rápido.

O histórico dá uma pista do que eles vão usar. Depois da Enron veio a Sarbanes-Oxley (2002); depois de 2008 veio a Dodd-Frank (2010). Desde então, críticos dizem que as duas impõem custos altos: a Sarbanes-Oxley por encarecer a listagem de ações nos EUA, \[42] a Dodd-Frank por acelerar o declínio dos bancos comunitários. \[43] Duvido que a próxima falha traga a desregulamentação que tanta gente que constrói deseja. Acho que virá uma nova camada de regras, escrita sob pressão. Uma regra publicada escrita agora, com calma, é o melhor negócio.

![Duas falhas, cada uma seguida de uma lei que, segundo os críticos, impõe custos altos, e o incidente de IA de julho de 2026, com a lei que vem depois ainda em aberto.](https://ricardokrug.com.br/pt/blog/regra-ou-discricao/figures/crash-then-law.png)

## Duas objeções: velocidade e custo

A objeção mais forte é a velocidade. Uma lei escrita em 2024 já estaria desatualizada, dizia o argumento em março, \[44] e o sistema informal tinha funcionado relativamente bem até ali.

Acho que metade disso é verdade. O erro é tratar "as regras" como um bloco só. Regras ficam em níveis diferentes de abstração, e cada nível envelhece na sua própria velocidade. Uma regra atrelada ao tamanho ou às capacidades de um modelo envelhece rápido: uma linha que marcava a fronteira em 2024 pode significar outra coisa em 2026. Uma regra sobre um mecanismo, como "a empresa fiscalizada não escolhe nem paga quem a fiscaliza", envelhece devagar. O conflito do emissor que paga se firmou nos anos 1970 \[31] e ainda estava no centro das falhas de rating de 2008. \[32]

Então cada nível pode ficar com um órgão que acompanha seu ritmo de mudança. Os princípios que mudam devagar vão numa lei, que é difícil de mudar, e deve ser. Os detalhes que mudam rápido, como limiares e testes, vão para uma agência que os atualiza em público. Nos EUA isso se chama notice and comment: a agência publica a mudança, recebe comentários e marca uma data. Qualquer um vê a mudança chegando. A discricionariedade também envelhece, só que de forma menos visível: uma ordem executiva pode ser revogada no dia em que chega um novo governo, e um framework não publicado pode mudar sem que ninguém de fora saiba.

![Três níveis de regras: uma lei, uma agência e a discricionariedade, e se dá para ver cada um mudar.](https://ricardokrug.com.br/pt/blog/regra-ou-discricao/figures/levels.png)

A segunda objeção é o custo: uma lei cujo cumprimento só os grandes laboratórios conseguem bancar transformaria a liderança deles num fosso. Mas veja a quem o sistema atual já atende primeiro. Parceiros previamente avaliados, operadores de infraestrutura crítica, programas de acesso para usuários de confiança, conversas privadas na Casa Branca. Se você toca uma startup de dez pessoas, qual dessas portas está aberta para você? Um sistema que só quem está dentro consegue ler favorece quem já está dentro e, com o tempo, desconfio, concentra o mercado em poucas empresas. Uma regra geral cobre uma classe de atividades, seja quem for que as exerça. A discricionariedade decide uma empresa por vez. Esse é o fosso que me preocuparia.

## Como é uma regra publicada

"Regra" pode significar quase qualquer coisa, então eis o que quero dizer. Uma regra publicada passa em seis testes, e os testes valem tanto para as empresas quanto para o governo:

1. É publicada antes de valer.
2. É geral: cobre uma classe de atividades, não uma empresa.
3. Cada decisão expõe seus motivos com base no padrão publicado.
4. O recurso vai para alguém independente da decisão e, no fim, a um tribunal.
5. A empresa fiscalizada não escolhe nem paga quem a fiscaliza.
6. Uma lei define as bases, e uma agência atualiza os detalhes em público, com data.

Pelo histórico acima, o sistema de 2026, na minha conta, falha nos seis: um padrão não publicado, uma empresa por vez, nenhum motivo detalhado, um recurso que fica dentro do Departamento de Comércio sem revisão judicial, auditores escolhidos pelos laboratórios e um framework apoiado numa ordem executiva, não numa lei.

![Os seis testes, aplicados ao sistema de 2026.](https://ricardokrug.com.br/pt/blog/regra-ou-discricao/figures/scorecard.png)

## Chame de controle por discricionariedade

Em junho, o governo assinou uma ordem que não autoriza licença nenhuma. Depois, caso a caso, Washington decidiu quando os modelos eram lançados e quem os recebia, e os laboratórios se comprometeram a escolher os próprios auditores. Até onde consigo ver, nada ficou menos controlado. O que o público nunca recebeu foi um motivo detalhado ligado a um padrão publicado. Sem ele, o controle caso a caso abre espaço para a arbitrariedade: a próxima decisão pode ir no sentido oposto, para qualquer um, e ninguém de fora sabe dizer por quê.

Já vi esse movimento antes. Na [minha tese de 2022](https://teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2136/tde-03042023-174608/publico/11550227MIO.pdf) sobre a crise de 2008, escrevi que "a denominação 'desregulamentação' pode funcionar mais como mistificadora do que esclarecedora: porque não se trata de um movimento exclusivamente no sentido de acabar com quaisquer formas de regulamentação, apenas aquelas que limitem as possibilidades de expansão de suas atividades especulativas". \[45] Em termos simples: as regras que caíram foram as que limitavam apostas arriscadas. A meu ver, o sistema anterior a 2008 não era uma ausência de regras. Era um conjunto de escolhas sobre quem fiscaliza quem. O de 2026 também é.

Então pare de chamar isso de desregulamentação. Chame de controle por discricionariedade.

_Foto da capa por [m.](https://unsplash.com/@m_____me) no [Unsplash](https://unsplash.com/photos/selective-focus-photography-of-graph-ZzOa5G8hSPI), sob a [Licença Unsplash](https://unsplash.com/license)._

## Referências

1. Ball, ["Clawed"](https://www.hyperdimensional.co/p/clawed), Hyperdimensional, March 2, 2026.
2. Reuters, [the lifted Fable 5 controls](https://www.reuters.com/business/us-lift-export-controls-anthropics-fable-ai-model-tuesday-source-says-2026-06-30/), June 30, 2026.
3. Pethokoukis, ["The Long-Term Impact of L'Affaire Anthropic"](https://www.aei.org/commentary/the-long-term-impact-of-laffaire-anthropic/), AEI, June 15, 2026.
4. Politico, [AI executives sign the accord at a White House lunch](https://www.politico.com/news/2026/09/29/ai-execs-morally-binding-constitution-01097855), September 29, 2026.
5. [White House Accord on Super Intelligence](https://www.presidency.ucsb.edu/documents/white-house-accord-super-intelligence), September 29, 2026, American Presidency Project.
6. Robles, [White House unveils super intelligence executive order and industry accord](https://www.nextgov.com/artificial-intelligence/2026/09/white-house-unveils-super-intelligence-executive-order-and-industry-accord/416325/), Nextgov, September 29, 2026.
7. Cato at Liberty, ["The White House's Approach to Frontier AI Might Be Worse Than an 'FDA For AI'"](https://www.cato.org/blog/white-houses-approach-frontier-ai-might-be-worse-fda-ai), July 17, 2026.
8. Hayek, *The Road to Serfdom*, Routledge, 1944, chapter 6, "Planning and the Rule of Law", pp. 75–76 (Routledge Classics edition).
9. Friedman, *Capitalism and Freedom*, University of Chicago Press, 1962, chapter 1, p. 15, and chapter 2, pp. 25–26 (40th anniversary edition).
10. Nozick, *Anarchy, State, and Utopia*, Basic Books, 1974, preface, p. ix.
11. Altman, [written testimony](https://www.judiciary.senate.gov/imo/media/doc/2023-05-16%20-%20Bio%20&%20Testimony%20-%20Altman.pdf) and hearing remarks, Senate Judiciary Committee, May 16, 2023.
12. Blumenthal and Hawley, [Bipartisan Framework on AI Legislation](https://www.blumenthal.senate.gov/newsroom/press/release/blumenthal-and-hawley-announce-bipartisan-framework-on-artificial-intelligence-legislation), September 8, 2023.
13. Federal News Network, ["WH 'studying' AI security executive order"](https://federalnewsnetwork.com/artificial-intelligence/2026/05/wh-studying-ai-security-executive-order/), May 6, 2026.
14. Görgen, ["Trump Abandons 'FDA for AI' Proposal"](https://www.techpolicy.press/trump-abandons-fda-for-ai-proposal/), Tech Policy Press, May 22, 2026.
15. Lennett, ["Trump Signs Previously Shelved AI Executive Order"](https://www.techpolicy.press/trump-signs-previously-shelved-ai-executive-order/), Tech Policy Press, June 2, 2026.
16. [Executive Order 14409](https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2026/06/promoting-advanced-artificial-intelligence-innovation-and-security/), June 2, 2026; 91 FR 34565.
17. Lau and Frame, ["May 2026 US Tech Policy Roundup"](https://www.techpolicy.press/may-2026-us-tech-policy-roundup/), Tech Policy Press, June 1, 2026.
18. Anthropic, ["Statement on the directive to suspend Fable 5 access"](https://www.anthropic.com/news/fable-mythos-access), June 12, 2026.
19. Hacker News, [discussion of Anthropic's statement on the suspension](https://news.ycombinator.com/item?id=48511072), June 13, 2026.
20. Anthropic, [post on restoring Mythos 5 access](https://x.com/AnthropicAI/status/2070665903440871779), June 26, 2026.
21. Cloud Security Alliance, [governance analysis of the Fable and Mythos export control](https://labs.cloudsecurityalliance.org/research/governance-fable-mythos-export-control-v1-0/), 2026.
22. Reuters, [OpenAI defers the public rollout of GPT-5.6](https://www.reuters.com/legal/litigation/openai-defers-public-rollout-gpt56-us-seeks-early-access-frontier-ai-models-2026-06-26/), June 26, 2026.
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